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Por que nosso principal cliente do agronegócio está se voltando para o ESG

Em meio à pandemia de covid-19, a China comprou 73,2% de tudo o que o Brasil exportou dos seus grãos — uma soma de US$ 20,9 bilhões (R$ 113,7 bilhões, na cotação atual) dentre os US$ 28,6 bilhões (R$ 155,6 bilhões) que o país vendeu ao exterior só desse tipo de produto agrícola. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do governo federal, 83 milhões de toneladas foram enviadas para o gigante asiático.

Depois dos grãos, são as carnes que ocupam o segundo lugar da lista de produtos agrícolas mais exportados pelo Brasil — e, da mesma forma, a demanda chinesa é a mais expressiva. Em 2020, a China adquiriu 54,2% de toda a produção de carne bovina in natura brasileira, em uma soma que chegou a US$ 7,5 bilhões (R$ 48 bilhões).

Foto: Bruno Cecim - Agência Pará

 

No total, segundo dados da Secex, a China comprou um terço de tudo o que o Brasil vendeu dos seus produtos agrícolas no mercado internacional: 33,7%, o que significou um montante global de US$ 34 bilhões (R$ 185 bilhões) para os produtores daqui. O desempenho de 2020 foi 1,7 pontos percentuais maior do que o de 2019, quando a demanda dos chineses resultou em uma participação de 32% sobre todas as exportações agrícolas do Brasil.

Por esses números, o país asiático é de longe o nosso principal cliente do agronegócio.

Mas isso todo mundo já sabe. O que é novidade é que a China está cada vez mais baseando seus negócios internacionais pelos critérios de ESG — o que significa que, muito em breve, eles serão os parâmetros do gigante asiático em suas importações agrícolas.

O apetite chinês x ESG

O ESG já pode ser considerado um fenômeno central nos mercados globais de capital — e o mesmo acontece na China. De fato, até poucos anos atrás, era difícil realizar investimentos e tomar decisões com base nos critérios de ESG na China por causa dos poucos dados que as empresas do país disponibilizam ao mercado internacional.

Isso, porém, está mudando. Em 2019, segundo a consultoria chinesa Ping An, 85% das 300 maiores companhias do país lançaram seus programas de ESG — número que era de 54% em 2013. Entre essas, 12% ainda apresentaram ao mundo relatórios auditados, demonstrando maior transparência para suas operações.

A tendência do crescimento do ESG na China é dirigida por algumas forças específicas: em primeiro lugar, as regulações chinesas estabeleceram que a maioria das empresas deveria obrigatoriamente apresentar suas demonstrações financeiras ao final de 2020.

Em meio a isso, o presidente do país, Xi Jinping, anunciou que o país tem a meta de deixar de emitir dióxido de carbono na atmosfera até 2060, incentivando a transição para uma economia sustentável. A medida foi recebida com grande otimismo no mundo dos negócios, já que a China foi, por muito tempo, o fiel contrário da balança dos discursos em torno do aquecimento global.

Em segundo lugar, investidores estrangeiros com negócios na China precisam atender aos padrões de ações dos seus próprios domicílios de investimentos quando dispendem recursos em empresas chinesas, o que leva, por sua vez, a uma melhora na qualidade dos relatórios e nas práticas dos negócios.

China pode liderar o ESG na Ásia

As emissões chinesas se tornaram de fato, um problema — e essa é uma notícia que os produtores brasileiros devem se atentar. Desde o Acordo de Paris, em 2015, o gigante asiático permaneceu inerte aos discursos sustentáveis em torno do mundo, mas decidiu agora que realizará, finalmente, uma transição longa e complexa em direção às tecnologias energéticas limpas e renováveis.

O resultado disso já é visto nas expectativas do mercado internacional: em um editorial publicado há um mês, a Nasdaq, bolsa de valores de Nova York, afirma que a China está pronta para encabeçar o ESG na Ásia. A transformação econômica do país em direção a energias renováveis e o crescimento da produção de veículos elétricos está atraindo mais fluxos de fundos relacionados ao conceito. Isso fez, segundo dados da Nasdaq, que houvesse um aumento de 20% em fundos adquiridos no continente asiático em 2021.

Foto: Canva

 

 

 

 

 

O que o aumento do ESG na China diz ao Brasil?

A resposta para esta pergunta é unânime: sendo o maior produtor e exportador de vários produtos agrícolas para o mundo, o Brasil deve assumir imediatamente a relevância dos padrões de sustentabilidade para o agronegócio, isto é, precisa passar a implementar o ESG em todas as suas operações de agro.

Isso diz respeito não apenas à imagem do país no cenário internacional — que já sofreu um duro ataque do presidente da França, Emmanuel Macron, em janeiro —, mas também ao próprio comércio brasileiro do agro no exterior. Como parte de uma lei econômica que nunca falha, produtores e fornecedores que se adequarem mais rapidamente às novas demandas do jogo de trocas comerciais terão acessos privilegiados a crédito, insumos, mercados e demanda, enquanto quem ficar para trás terá dificuldades para acompanhar essas mudanças depois.

É um erro supor também que a capacidade agrícola brasileira, justaposta à demanda de muitos países, principalmente da China, fará com que o ESG seja deixado de lado nas exportações: ao contrário, o mercado do agronegócio funciona no esquema negócio a negócio, de forma que os produtores que permanecerem resignados ou distantes dos padrões de sustentabilidade que se impõem, verão seus produtos perderem consumidores e, mais do que isso, preço.

O ESG não vai parar de crescer. Na verdade, sua curva está apenas começando: os critérios já são exigidos pelas negociações com a União Europeia que, agora, ganhou um parceiro de peso nessa demanda: os Estados Unidos, governados pelo democrata Joe Biden. Não à-toa, muitos analistas internacionais salientam que a decisão chinesa de entrar de cabeça no ESG veio depois que ficou claro que esses critérios seriam fundamentais para dois dos polos mais importantes da geopolítica mundial.

Para o Brasil, pode ser um momento único na história de ser a vanguarda de um novo modelo de produção e comercialização do seu maior produto no mercado internacional ou, ao contrário, o início de uma grande ruína. Nós, da Funcional Consultoria, estamos trabalhando apenas com a primeira opção.

 

Foto Capa: Hanny_Naibaho-Unsplash