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Mas afinal, o que é ESG?

É muito comum que a cada ano surja uma nova sigla ou conceito novo entre as empresas. Nos últimos tempos, coisas como big data, IoT (Internet das Coisas) ou mesmo o compliance figuraram em quase todas as reuniões de pequenos, médios e grandes negócios.

É assim, principalmente, porque são esses negócios que estão na dianteira das inovações, das ideias, da procura por novas práticas que, ao mesmo tempo, estejam alinhadas com o contexto presente e com as demandas de investidores, consumidores e outras organizações. Assim, cada nova sigla ou conceito é, na verdade, fruto desse descontentamento positivo que faz com que o ambiente de negócios permaneça sempre em busca de novidades.

Agora, o momento é do ESG.

Você provavelmente ouviu falar sobre ele no ano passado, em meio à pandemia de covid-19, mas também é possível que ainda não saiba do que se trata. Meu objetivo é que, ao final deste texto, você tenha uma boa ideia não apenas do conceito, mas das potencialidades que ele oferece para seu negócio.

 O que é ESG?

Environmental, Social and Corporate Governance (ESG) ou, em português, Ambiental, Social e Governança (traduzido para “ASG”) é a forma como consultorias, bancos e fundos de investimento têm construído critérios para avaliar empresas diversas de acordo com os impactos que suas operações promovem no meio ambiente, na sociedade e no próprio ambiente de negócios.

Esses critérios definem, hoje em dia, o quanto uma empresa é capaz de receber investimentos, adquirir empréstimos ou mesmo definir o seu desempenho de mercado. Eles cobrem um grande espectro de questões que tradicionalmente não são parte das análises e decisões financeiras, muitas delas que até então sequer tinham relevância para o mercado, como as respostas das empresas à mudança climática, como elas atuam no manejo da água, quais são suas políticas efetivas de prevenção a corrupção, como elas lidam com suas cadeias de produção e como atuam com relação à saúde dos seus colaboradores.

Um dos periódicos econômicos mais importantes do mundo, o Financial Times, define o ESG como "um termo genérico usado em mercados de capital e por investidores para avaliar comportamentos corporativos e para determinar o desempenho financeiro futuro das empresas".

A revista explica que o conceito diz respeito a um "conjunto de indicadores de desempenho não financeiros que incluem questões sustentáveis, éticas e de governança corporativa" e que, hoje em dia, são fatores decisivos a serem considerados por fundos, consultorias e agências de investimento e fomento a atividades.

Ainda segundo o Financial Times, a importância do ESG está em demonstrar quais são os riscos que são levados em conta hoje tanto por grandes investidores como por empresas de diversos portes e setores de atuação em seus planejamentos estratégicos.

É por isso que o ESG é conhecido também pela expressão "sustainable investing" ("investimento sustentável"): ele é um guarda-chuva que representa a busca por investimentos positivos e cujos retornos não sejam aferidos apenas em termos financeiros, mas também em impactos de longo prazo na sociedade, no meio ambiente e, claro, nos resultados dos negócios.

Em suma, então, o ESG reúne os principais critérios atuais para que uma empresa receba investimentos, colha resultados positivos, encontre oportunidades de negócios, esteja bem posicionada em seus mercados, tenha melhores condições financeiras entre bancos, agências e consultorias e, para além disso, que se coloquem como agentes inovadores e preocupados não apenas com seus fluxos de caixa, mas no impacto deles na sociedade como um todo.

Não é à toa que o conceito tenha adquirido força durante a crise mundial da covid-19 por intermédio do mercado financeiro – que viu quedas brutais de seus fluxos, prognósticos inteiros desabarem em questões de meses e projetos se desmontarem após anos de relativa estabilidade. Em meio a isso, esse setor notou que os riscos existentes em operações que não levam em conta a sustentabilidade são muito grandes para passarem despercebidos.

O ESG (ou ASG) surgiu como o braço sustentável do mercado financeiro em momento em que esse setor importante da economia mundial passou a incorporar elementos ambientais como partes preponderantes de suas avaliações de negócios (investimentos, empréstimos, intermediações, pontuações financeiras, etc.). No entanto, o ESG adquiriu vida para fora das bolsas, sendo hoje um conjunto de fatores determinantes para qualquer empresa.

Isso não significa dizer que esses critérios são novos ou que nunca estiveram na ordem do dia das empresas. Na verdade, a sigla existe pelo menos desde meados dos anos 1970. Significa, na verdade, que eles adquiriram um status diferente em meio à pandemia – cujos impactos nos negócios se comparam a grandes acontecimentos do passado, como as crises econômicas e as guerras do século XX.

O impacto disso pode ser visto por meio de uma carta: a que foi endereçada por Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de fundos de investimento do mundo (com cerca de US$ 7 trilhões em ativos), aos CEOs das empresas que fazem parte da sua cartela de clientes: nela, Fink simplesmente anunciava que pararia de investir em todos aqueles que não tinham projetos sustentáveis ou, mais do que isso, não apresentavam nenhum propósito.

O ESG, ponto a ponto

O ESG, como um guarda-chuva, reúne três fatores centrais na mensuração dos impactos sustentáveis e éticos de uma empresa. Embora não tenham necessariamente aspectos financeiros, eles promovem impactos materiais de longo prazo tanto na área de atuação de uma organização como fora dela. Do ponto de vista estritamente financeiro, esses fatores determinam os riscos de um negócio dentro de um mercado, assim como suas possibilidades de retorno e de novos investimentos -- que, no fim, gerem lucros aos investidores e acionistas.

É por isso que, do ponto de vista dos riscos, o ESG incorpora pontos como compliance, estratégias sustentáveis de investimentos e governança corporativa.

A EFFAS, a federação europeia de análise financeira, aponta que os tópicos fundamentais do ESG utilizados por análises financeiras hoje no mundo são: eficiência energética, emissões de carbono, turnover de colaboradores, programas de treinamento e qualificação, maturidade das equipes, taxa de abstenção, riscos de litígios, corrupção e receitas com novos produtos.

No geral, porém, podemos dizer que o ESG se desdobra em temas que atravessam cada um dos três grandes conceitos: ambiental, social e governança. No primeiro deles, estão principalmente:

  • Preocupações com mudanças climáticas e emissões de carbono;
  • Utilização sustentável de recursos naturais;
  • Redução da poluição ambiental;
  • Adequação à gestão de resíduos.

Entre os sociais, isto é, que envolvem a sociedade ao redor, os pontos mais importantes são:

  • Promoção da saúde, segurança, diversidade e treinamento de colaboradores;
  • Responsabilidade com o consumidor;
  • Estabelecimento de relação com a comunidade;
  • Promoção de atividades beneficentes.

Por fim, quando se fala em governança – um dos pontos mais inovadores do ESG –, fala-se principalmente na preocupação que as empresas devem ter com sua organização interna, de forma que as operações não sejam prejudicadas por gargalos, processos inadequados ou mesmo hierarquias difusas. São eles, principalmente:

  • Estabelecimento de direitos dos acionistas;
  • Composição do conselho de administração, com independência e diversidade;
  • Elaboração de política de remuneração da diretoria;
  • Prevenção a fraudes e atos de corrupção.

Por que o mercado financeiro assumiu essas preocupações?

Tão importante quanto incorporar os critérios de ESG às operações é entender os motivos pelos quais o mercado financeiro mudou seu olhar para a sustentabilidade. Hoje, de fato, muitos dos desafios ambientais do mundo estão postos justamente pelas ações desgovernadas desse mesmo setor durante o século passado – investindo em grandes exploradoras de recursos naturais e expandindo sua área de influência por meio dos fluxos globais de produção e demanda.

Apesar de existir desde os anos 1970, o ESG só se tornou mais palpável duas décadas depois, quando os primeiros índices de sustentabilidade de empresas surgiram nas bolsas de valores do mundo todo. Ainda assim, eles não eram critérios decisivos na tomada de decisão dos negócios, sempre pautada pela lógica de maximizar o retorno para os acionistas a qualquer custo. Então, se os indicadores sustentáveis existiam como alguns dos parâmetros que orientavam os fluxos financeiros, eles estavam longe de serem os mais importantes.

Essa realidade começou a mudar quando os relatórios de sustentabilidade adquiriram um novo status: até o final dos anos 2000, eles eram meros adereços reputacionais das empresas, uma formalidade que aparecia nos balanços ou surgia nas apresentações de negócios, mas que não pautava as decisões. A partir daquele período, porém, com o crescimento da narrativa mundial em torno do aquecimento do planeta, as manifestações cada vez maiores em torno do assunto em diferentes partes do mundo e mesmo o nascimento de partidos ecológicos na Europa levaram o tema a outro patamar.

É por isso que o termo tenha aparecido com intensidade a partir de 2005, em um estudo chamado Who Cares Wins ("Quem se importa vence"), publicado pelo economista Ivo Knoepfel na revista Forbes. Ele era, na verdade, uma reação à convocação do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para que os 50 CEOs das maiores instituições financeiras do mundo participassem junto com a entidade de uma iniciativa conjunta de integrar o ESG nos mercados de capital.

O argumento de Knoepfel, logo abraçado pelas agências e consultorias financeiras, é que incorporar preocupações ambientais, sociais e governança nos mercados significa bons retornos de negócios enquanto, ao mesmo tempo, leva a ambientes de trocas comerciais mais sustentáveis e, por consequência, a sociedades melhores.

Fez tanto sentido que, em 2018, 80% dos maiores conglomerados do mundo estavam se valendo de algum tipo de padrão de ESG.

E se já era importante nas primeiras décadas do século XXI, a pandemia do novo coronavírus veio para mudar drasticamente o lugar do ESG: do ano passado para cá, os relatórios de sustentabilidade deixaram de ser formalidades para serem suportes fundamentais dos relatórios financeiros, dos indicadores decisórios, dos critérios dos fundos, das pontuações bancárias, mesmo do ambiente de negócios como um todo, sendo um elemento decisivo para os investidores fazerem suas escolhas. Em outras palavras, o meio ambiente e a responsabilidade social entraram na ordem do dia.

Isso porque, com a pandemia, o mercado financeiro percebeu que as mudanças climáticas, os desvios de conduta das corporações e mesmo a falta de propósito social podem trazer grandes prejuízos. Tudo isso dentro da mesma lógica: a que de que novas estratégias devem ser desenhadas para garantir e maximizar o retorno aos acionistas – só que agora por meio de um novo viés.

ESG no Brasil

Em meio à pandemia, o conceito de ESG aterrissou no Brasil para ficar, apesar de ainda ser relativamente novo. Recentemente, a XP investimentos, uma das maiores gestoras do país, lançou três fundos sustentáveis com aplicações mínimas de R$ 500, seguindo iniciativas de bancos como o Santander e de outros gestores internacionais com atuação no país. 

No entanto, há ainda algumas incertezas por conta da crise que o país atravessa. Recentemente, o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira, disse que, como o ESG se tornou fundamental para os investidores mundiais, "está difícil mostrar a eles que o país vai crescer". A solução, para ele? O ESG.

"Precisamos demonstrar que temos uma política responsável, uma política clara de combate ao desmatamento ilegal e ao crime ambiental. É isso que o mundo está nos cobrando neste momento", revelou.

Não foi uma fala trivial: no começo de 2020, um grupo de investidores internacionais que reúnem cerca de R$ 20 trilhões em ativos no país enviou cartas a oito embaixadas brasileiras cobrando atenção do governo ao aumento dos desmatamentos.

Do ponto de vista empresarial, o conceito ainda engatinha: segundo um dado da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), o montante aplicado em fundos de ações sustentáveis no Brasil somava R$ 543,4 milhões em junho do ano passado. Era um volume 29% maior do que o registrado no mesmo mês de 2019, mas representava apenas 12% de todo o patrimônio nacional de fundos de ações e 1% de tudo o que os fundos de investimentos fazem circular no país.

No entanto, o que temos visto, entre os clientes da Funcional Consultoria, é não apenas o interesse em conhecer mais sobre o ESG como, principalmente, em adotar os critérios com os objetivos que ficaram claros desde o início da proposta: retorno financeiro em paralelo ao desenvolvimento ambiental e social. E parece que este é exatamente o caminho que, como sempre falamos, leva a transformar, perpetuar e potencializar negócios.

Vamos conversar mais sobre ESG? Clique aqui e marque uma reunião conosco.

 

Samuel Campos da Silva, supervisor de Gestão Empresarial da Funcional Consultoria.